Teatro, templo e mercado

Também eu, sinto-me no palco de um grande teatro, hoje especialmente, quando estou sob risco iminente de perder objetos aos quais me escravizei e tornei-me dependente. Bobagens como o plano de saúde do Thomas, por exemplo. Ando pelo palco para lá e para cá. Meu script terminou faz tempo, não tenho falas ou função na peça. Olho para o diretor, mas ele está voltado para os protagonistas e não chega a me olhar sequer. Se eu quiser que ele me veja, tenho que agredir os protagonistas. Mas tenho medo que ele me mande sair do palco.
No Templo
O templo ficou do jeito que Jesus gosta. Todo mundo vendendo de tudo. Pombas, morcegos, Avon, livros, água benta, Natura, penduricalhos santos ou não, DVDs, Yakult, CDs, pizza, sorvete, acampamentos, retiros e, se bobear, até bÃblias. As pregações e os sermões tem toda uma preocupação mercadológica. Bom era o tempo em que, embora visse e ouvisse tudo isso, não discernia e achava tudo bonito, cheio de Deus. Até pagar a conta da cantina entendia como milagre. O culto virou uma grande feira de produtos e vaidades. Mostre-me um templo, onde está a casa de oração, sem comércio, sem insdústria , sem comidas, sem cantorzinhos ridÃculos ou bandas rastejantes e no dia seguinte rumarei para lá.
O Mercado
Em torno da igreja formou-se todo um mercado que gera milhares de empregos, hoje. O mesmo fenômeno que já havia ocorrido com a educação, a saúde e até com as prisões. A Igreja transformou-se em uma das melhores consumidoras do mercado. Vendem de tudo para as igrejas: computadores, multimÃdias, aparelhagem de som, instrumentos musicais, máquinas de café e refrigerantes, cozinhas industriais, macas, desfribiladores, camisinhas e viagra. Dizem que é mal necessário. Quem sou eu para combater essas pirotecnias. Jesus foi muito imprudente e precipitado quando chutou essa turma do templo. Imagine quanta gente ele deixou desempregada, naquele dia. Se bem que os cães devem ter voltado ao vômito, rapidinho.
O Ator
Sabe, sou um grande covarde e canalha. Tenho medo de ganhar a vida como qualquer outro. Devia tampar meus ouvidos e fechar meus olhos. Afinal tenho famÃlia e minhas contas a pagar. Desde menino, sofri com isso. Não me passaram para trás, sempre deixei que todos fossem à minha frente, pois não queria ser como todos. Não gostava de mentir, roubar e outras travessurinhas que a turma adorava praticar. Algumas vezes acabei cedendo, mas me arrependi e voltei a ser eu mesmo. Pobre, esquecido, endividado, maltrapilho espiritual, mas cheio de orgulho. Só não sei para que serve isso. Hoje eu trocaria meu orgulho por um pratinho de lentilhas no palco do templo desse mercado.
Soli Deo Gloria.
* Teatro, Templo e Mercado - Leonildo Silveira Campos - Ed. Vozes/UMESP 1997
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