Lou Mello
Estudou Educação Física, Teologia, Análise Transacional e Administração de Organizações Sem Fins Lucrativos. É casado e tem três filhos. Foi professor, dirigiu empresas, pastoreou congregações, aconselhou pessoas e fez consultoria em muitas ONGs e Igrejas. Atualmente, escreve em seu blog A Gruta e tem um monte de textos espalhados por aí.
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Artigos por Lou Mello
Tamar e a submissão libertadora
21/02/12

Exílio, deslocamento e estratégias de sobrevivência: questões literárias e culturais na narrativa bíblica de Tamar
Resumo:
Considerando a importância da Bíblia como obra basilar e a convergência entre os estudos literários e teológicos, este trabalho tem por objetivo aproximar-se do capítulo 38 de Gênesis, a fim de abordar a história de Tamar, uma mulher que, como Sara, Rute, Judite e Ester, tem importância fundamental na constituição identitária do Antigo Israel. Assim o fazendo, ele revelará que dessa história ancestral é possível retirar um lastro de sentido relevante para as críticas literária e cultural contemporâneas. Tamar é o sujeito principal do relato, sobrepujando a importância do personagem masculino Judá. O presente trabalho, contudo, interessa-se também pelo deslocamento ao mesmo tempo espacial e psicológico dessa personagem, que luta contra um sistema hostil e opressor. Palavras-chave: Tamar, exílio, deslocamento, Bíblia, feminino.
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Introdução
Este texto pretende analisar a história de Tamar, presente no capítulo 38 do Gênesis. Essa história se insere no plano mais amplo dos capítulos 37 a 50, onde é descrita a saga de José do Egito, penúltimo filho de Jacó e Raquel (Gn 30,24; 35,24; 1Cr 2,2). Por inveja dos irmãos − entre eles Judá − José foi vendido a comerciantes que vão ao Egito, de cujo faraó ele veio a se tornar o primeiro ministro. Toda a primeira parte, até a venda ao Egito, é exposta no capítulo 37; o restante do enredo ocupa os capítulos 39 a 50. O relato sobre Tamar interrompe essa novela, provocando um deslocamento narrativo no corpus mais amplo do Gênesis. Mesmo dizendo poucas palavras, Tamar é o sujeito principal do capítulo, sobrepujando a importância do personagem masculino, Judá.
As linhas que se seguem interessam-se pelo deslocamento, ao mesmo tempo espacial e psicológico, de Tamar, que luta contra um sistema hostil e opressor. Tal situação, responsável pela criação de estratégias de sobrevivência em meio a situações de precariedade, a aproxima de outras mulheres que, ao longo da história, foram submetidas a exílios, alijadas da (sua) história. A fim de dar conta de seus objetivos, esta leitura se valerá dos pensamentos de Robert Alter, Paul Tabori, Simone de Beauvoir e Daniel Boyarin, manifestados nos seguintes e respectivos livros/artigos: A arte da narrativa bíblica (2007), “The semantics of exile” (1972), O segundo sexo (1980) e “Masada or Yavneh? Gender and the Arts of Jewish Resistance” (1997).
2. O lugar de Tamar na Bíblia e no livro do Gênesis
Tamar é citada, além de em Gn 38, em três outros lugares na Bíblia: dois no Antigo Testamento (Rt 4,12; 1Cr 2,4) e um no Novo Testamento (Mt 1,3). Embora a narrativa bíblica não seja suficientemente clara sobre sua origem, deixa transparecer que ela é cananéia, ou seja, filha do povo da antiga região da Palestina e sem linhagem ou sangue dos patriarcas e matriarcas bíblicos que chegaram da Mesopotâmia.
Tamar é nora de Judá, o quarto filho de Jacó com Lia. Ele a escolheu para se casar com Her, seu filho primogênito. Tamar, contudo, fica viúva de Her, mas o texto é estranhamente sucinto para dar uma razão plausível a essa viuvez – limita-se a informar que Her desagradou a Deus, que o fez morrer (Gn 38,7). Sendo assim, quem deveria assumi-la seria, por tradição, seu cunhado Onan.1 Este, porém, não se interessa em cumprir sua obrigação legal e, quando mantinha relações sexuais com ela, as interrompia antes de ejacular (Gn 38,9). A morte de Onan é referida da mesma forma que a de Her (v.10). O terceiro irmão, Selah, é prometido por Judá a Tamar, mas Judá não mantém sua promessa. É diante dessa situação que Tamar arquiteta um plano para obter um filho de Judá, seu sogro, e, desse modo, garantir a sua genealogia. Isso torna o relato bastante singular na Bíblia, inaugurando uma das mais surpreendentes estratégias de sobrevivência elaborada por uma mulher.
O processo pelo qual a personagem Tamar evolui na narrativa não deixa de ser surpreendente: de uma mulher sem identidade e à mercê dos homens a uma legítima detentora de descendência. Até o meio do episódio, Tamar é conduzida ou caminha para o luto, para a viuvez. Do meio para frente, sai dessa penumbra para a posteridade. De mulher rejeitada (início do capítulo) ela passa a matriarca de reis de Israel (fim do capítulo), porque o rei Davi será um de seus descendentes.
A primeira menção a Tamar acontece somente no versículo 6, quando se menciona a sua união com Her: “e tomou Judá uma mulher para Her, seu primogênito. O nome dela era Tamar”. O verbo lakah (tomar) aparece na Bíblia, na maioria das vezes, mostrando homens que capturam cidades, despojos e reinos. Sua presença em Gn 38,
Trata-se, no direito israelita antigo, da chamada lei do levirato (do hebraico levir, que significa cunhado). Em caso de morte do marido, sem que este deixasse descendência masculina, o irmão era obrigado a se casar com a cunhada e os filhos que nascessem dessa nova união, traziam o nome do falecido. Além do texto em estudo, a menção a essa lei aparece em outros lugares na Bíblia, com variações em sua aplicação. Por exemplo, nas indicações de Dt 25,5-10; no casamento de Rute com Boaz (Rt 4); possíveis alusões em Lv 18,6 e 20,21. No Novo Testamento, os fariseus fazem perguntas a Jesus sobre esse tema: Mt 22,23-33; Mc 12,18-27; Lc 20,27-40.
he is expelled by physical force or whether he makes the decision to leave without such an immediate pressure (TABORI, 1972, p. 37).4
indica a mulher sendo tomada pelo homem (38,2.6).2 Robert Alter, no livro A Arte da Narrativa Bíblica (2007), observa que “Tamar fora um objeto passivo, possuído – ou, infelizmente, não possuído – por Judá e seus filhos” (p. 22). Nesse aspecto, a personagem aproxima-se, então, de Sara e Rebeca – que também foram tomadas por seus maridos − com a diferença de que, em Gn 38, o tema da sexualidade é ainda mais pungente. Sua condição de mulher lhe confere traços de moeda de troca, sendo passada de mão em mão. Isso é demonstrado pelo fato de que, segundo Alter, os únicos verbos onde ela é sujeito, indicam obediência e isolamento: “e disse Judá a Tamar, sua nora: ‘permanece viúva na casa de teu pai até que cresça Selah, meu filho’, pois disse: ‘ele também morrerá como seu irmão’. E foi Tamar e permaneceu na casa de seu pai” (Gn 38,11).
3 Deslocamentos: a expressão feminina e silenciosa do corpo de Tamar
Tamar é mostrada, nessa narrativa, como uma mulher solitária, enfrentando uma série de situações que lhes são desfavoráveis. Há dois movimentos de deslocamento no episódio: quando Judá tira Tamar da casa (bayt) do seu pai (v.6) e, depois, quando torna a devolvê-la (v.11).3 Tamar experimenta, longe da própria família, rejeição e silêncio. Embora nada se saiba sobre sua vida na casa dos pais, há um triângulo de autoridade masculina que determina a sua existência, o que é bastante singular na Bíblia: o pai, o sogro e o esposo. No caso de Tamar, a sua submissão à figura masculina é mais acentuada, pois ela será tomada por dois maridos, sendo prometida a um terceiro. A fim de esperar que o terceiro filho de Judá possa ter idade o suficiente para tomá-la como esposa, Tamar, que se tornara uma estranha na casa de seu sogro, é enviada de volta à casa do pai. No entanto, ao voltar para lá, enviuvada e rejeitada, vê-se novamente em exílio. Nesse sentido, vale a pena mencionar que uma das definições de exílio, indicadas por Paul Tabori, em “The semantics of exile” (1972), cabe perfeitamente no contexto de Tamar: An exile is a person who is compelled to leave his homeland – though the forces that send him on his way may be political, economic, or purely psychological. It does not make an essential difference whether
2 As outras citações podem ser notadas em 38,2.20.23.28. Observe-se, também, que Abraão toma Sara em Gn 12,5 e Rebeca é tomada em 24,38-40. 3 Bayt, em hebraico, não designa apenas a casa enquanto construção, mas a família e a descendência. Por exemplo, dizer que alguém é da casa de Abraão é o mesmo que afirmar que é da sua descendência. he is expelled by physical force or whether he makes the decision to leave without such an immediate pressure (TABORI, 1972, p. 37)
Aquilo que Tabori chama de homeland, poderia, em Tamar, ser chamado de fatherhome. A volta para a casa do pai não elimina sua situação de exilada, pelo contrário, evidencia ainda mais essa realidade. De novo na casa do pai, Tamar volta vestida como estrangeira para si mesma. Vive um deslocamento particular na sua própria casa, pois seu exílio é interior, nos termos em que a ele se refere Tabori no texto mencionado.
Já na casa de seu pai, Tamar trama o seu plano, após saber que Judá, que, além dos dois filhos, perdera a esposa, desfaz-se definitivamente do luto após o tempo da morte e volta ao trabalho. Essa mudança de comportamento de Tamar, nascida no sofrimento, no silêncio e na espera, não acontece por uma palavra dela, mas por uma atitude. Sua estratégia é, assim, revelada pelo narrador:
12 E passaram muitos dias e morreu a filha de Sûa, mulher de Judá. E Judá se consolou e subiu a Tamna. Ele e seu amigo Hira, o adulamita, para a tosquia de suas ovelhas.13E foi dito a Tamar dizendo: “veja, teu sogro subiu a Tamna para tosquiar suas ovelhas”. 14E tirou suas roupas de viuvez de sobre ela e se cobriu com o véu e se disfarçou. Se sentou na porta de Einaim, que fica no caminho para Tamna, pois ela viu que cresceu Selah e ela não foi dada a ele por mulher (Gn 38,12-14).
O plano é simples: seduzir Judá, seu sogro, e obter dele um filho, sem que ele mesmo se dê conta. Tamar deixa, então, suas roupas de viúva e se veste de prostituta. Mais adiante, em 38,19, retomará suas roupas de viúva.
4 As estratégias de sobrevivência em uma sociedade patriarcal
A mudança no comportamento de Tamar fica mais clara quando o narrador demonstra que aquela mulher-objeto, antes passiva e tomada, torna-se independente. O clássico ditado popular que diz “foi buscar lã e voltou tosquiado” parece ter nascido dessa narração. Judá, ao subir a Tamna para a tosquia das ovelhas, julga encontrar uma prostituta no caminho. No entanto, não percebe que está sendo envolvido numa trama da qual nem de longe imagina o resultado. Por outro lado, a tosquia das ovelhas soa metafórica para o conjunto do texto. A principal ovelha tosquiada pelos homens é Tamar. Até as cabras têm suas crias, que podem ser tomadas e enviadas a Tamar, mas ela mesma ainda não tem a sua.
4 Tradução: “um exilado é uma pessoa que é obrigada a deixar sua pátria – embora as forças que o levem a tal ato sejam políticas, econômicas ou puramente psicológicas. Essencialmente, não faz diferença se foi expulso pela força física ou se tomou a decisão de ir voluntariamente.”
Essas fendas indicadas pela história realçam, sobremaneira, o destino insólito de Tamar, que será mudado por suas próprias mãos, ou melhor, pelo seu próprio corpo.
A abordagem de Judá a Tamar é direta, como é típico do modo de narrar bíblico. Considerando a mulher como uma prostituta, ele diz, literalmente, “vem cá agora, vou contigo” (v.16). A expressão “ir com alguém” é idiomática, referindo-se à relação sexual. Ela está presente como pano de fundo de toda a narrativa (38,2.8.9.16[2x].18.26). Essa abordagem permite, então, a primeira voz de Tamar na narrativa: “o que me darás a mim para que vás comigo?” (v.16). É assim que o valor da relação fica combinado em um cabrito (literalmente, cria de cabras). Assim como o objetivo da estratégia de Tamar é conseguir um filho (cria), a oferta de Judá (cria de cabras) é, de alguma forma, outra metáfora oferecida pelo narrador daquilo que Judá − sem o saber − está oferecendo a Tamar. Ao invés de ser trocada por um cabrito, vem a ser possuidora de um selo (hotam), de um cinto (patîl) e de um cajado (mateh), símbolos do poder masculino. O selo é como se fosse a assinatura de Judá. Ele reaparece no versículo 25, indicando sua identidade com seu possuidor, impossibilitando a negação ou recusa de Judá perante Tamar e legitimando o filho que ela carrega em seu ventre (Gn 38,26).
Associado ao cajado e ao selo, o cinto aparece como parte da indumentária de Judá, sem um lastro simbólico mais específico. Já no que se refere ao cajado, um de seus significados é a liderança da tribo, podendo designar o líder que dirige seu grupo. Quando o cajado está na posse da mulher, o significado que ele adquire torna-se ainda mais eloquente: é como se, apenas pelo prazer sexual, Judá renunciasse sua liderança e a passasse para as mãos de Tamar (literalmente). Da mesma forma que, por um pouco de comida, Esaú passou seu direito de primogenitura a seu irmão Jacó (Gn 25,34), o pai de Judá.
O corpo de Tamar, estrangeiro e preterido, passa a uma instância de poder, com vistas a um fim, isto é, adquirir uma descendência, que fará com que ela assuma o papel de procriadora, talvez o único papel honroso atribuído à mulher naqueles tempos. A situação de estrangeira de Tamar não consiste, somente, na relação de seu povo com o povo de Judá, mas no próprio velar e desvelar-se de sua condição feminina. Com isso, se quer dizer das mudanças pelas quais ela passa no seu constante dar-se a um e a outro marido na casa de seu sogro e, finalmente, ao próprio sogro. Nesse último caso, porém, é inequívoco que a decisão é da própria Tamar.
Na história de Tamar parece haver um crescendum de sentido em relação ao que ela vive sob as presenças masculinas: ela passa de mulher (indicação genérica e imprecisa) para Tamar; em seguida, é designada como mulher do irmão, nora, viúva, preterida, prostituta, grávida e mãe de gêmeos. É uma metamorfose que evidencia os epítetos, positivos e negativos na figura feminina. Tamar reúne em torno de si um léxico completo e emblemático de situações conflitantes, desesperadas e urgentes. Por outro lado, até mesmo o narrador (ou narradora) parece se surpreender com as reviravoltas do enredo, chamando a atenção do leitor. Em vários momentos, faz isso usando a forma hebraica hinneh, isto é, “veja” ou “eis aqui”. Um exemplo disso encontra-se no versículo 13. Outras ocorrências aparecem, ainda, nos versículos 23, 25, 27 e 29.
A autoridade masculina fica evidenciada no modo como os personagens se comportam: Judá, primeiramente, deixa seus irmãos e vai habitar com uma outra família, a de Hirah (38,1). É ali que seus olhos se dirigem para a filha do cananeu Sûa – cujo nome jamais é mencionado – e a toma para si. O mesmo Judá é quem toma as mulheres para seus filhos, no caso específico, Tamar. Judá é também o que sobe para a tosquia das ovelhas, depois de passado seu luto pela esposa. No caminho, dirige seus olhos para a mulher que julga ser uma prostituta. Nesse episódio, dentro da macro-narrativa, a única finalidade é a saciedade de seus desejos. Isso é mostrado pela forma como o hebraico edita suas palavras: “vem cá agora, vou contigo” (v.16).
Simone de Beauvoir, em sua obra O segundo sexo, faz considerações muito apropriadas sobre esse momento da história de Tamar: “o homem cai sobre a presa como uma águia ou um falcão; ela aguarda à espreita como uma planta carnívora” (1980 [1949], p.125). O último gesto masculino da narrativa é também de Judá, pois quando descobre a provável prostituição de Tamar, ele a condena à morte: “E se passaram três meses e foi dito a Judá: ‘fez-se prostituta Tamar, tua nora e também, veja, concebida por prostituição’. E disse Judá: ‘tirai-a e seja queimada’” (v. 24).
Dos outros personagens masculinos destaca-se Onan, por não querer assumir a cunhada. Sua primordial preocupação é a de uma descendência que seja sua e não do irmão. Do ponto de vista masculino, ficam em destaque os dados externos, objetivos. Aqueles que vêm de Tamar, nascem do interior, do sofrido, do pensado. É deles que surge a reação dessa mulher que norteia toda a narrativa. Algo, no entanto, fica latente: não passa despercebido o fato de que a atitude de Tamar é semelhante à atitude dos próprios homens da narrativa. Se pelo poder masculino ela é subjugada, de alguma maneira é esse mesmo poder que ela usa para subjugar e ter sua voz. Percebe-se, com clareza, como as relações de poder passam pelos interesses pessoais.
Em seu ensaio “Masada or Yavneh? Gender and the Arts of Jewish Resistance” (1997), Daniel Boyarin afirma que não são de todo equivocadas as representações dos judeus com características femininas, feitas pelos europeus (romanos e depois cristãos). Ele resgata mulheres bíblicas − como Ester e Judite – que (com seus corpos) salvaram seu povo de adversários e opressores masculinos, através de suas astúcias e estratégias, tornando-se modelos para o próprio judaísmo. Nesse sentido, ao se tratar da história de Tamar, importa ver, também, como ela mesma hostiliza e salva. Em Tamar, há uma submissão feminina que se converte num descontentamento gerador de estratégias: on the hand, it is the vulnerable body that is invaded, penetrated, and hurt. On the other hand, it is the fecund body, the body that interacts with the world and creates new life (BOYARIN, 1997, p. 308).5
Palavras finais
A narrativa de Tamar mostra o êxito de um improvável enfrentamento a um poder patriarcal. Um enfrentamento com o mínimo de palavras. Estrangeira, exilada e deslocada, Tamar figura como um exemplo de mulher bíblica determinada no propósito de sobreviver ao exílio que lhe é imposto e garantir uma genealogia contra toda e qualquer expectativa. Talvez aqui se observe, com mais nitidez, o lugar de sua história “dentro” do conjunto narrativo sobre José do Egito: assim como ele é o salvador (masculino) do povo de Israel, Tamar é o protótipo (feminino) da salvação desse mesmo povo. Enquanto José é garantia de proteção da vida do povo, salvando-o da fome, Tamar é a raiz de onde brotará a paradigmática estirpe real de Israel: Davi.
Referências
ALTER, Robert. A Arte da Narrativa Bíblica. Trad. Vera Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. Vol. II. 6a ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1980.
BOYARIN, Daniel. “Masada or Yavneh? Gender and the Arts of Jewish Resistance”. In: ____________. Jews and Other Differences: The New Jewish Cultural Studies. Minneapolis and London: University of Minneapolis Press, ed. Jonathan, 1997, p. 306–
329.
ELLIGER, Karl & RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5a. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.
TABORI, Paul. “The Semantics of Exile”. In: _________. The Anatomy of Exile: A Semantic and Historical Study. London: Harap, 1972, p.24-38. 5 Tradução: “por um lado, é o corpo vulnerável, o corpo que é invadido, penetrado, ferido. Por outro lado, é o corpo fecundo, o corpo que interage com o mundo e cria uma nova vida.”
XII Congresso Internacional da ABRALIC 18 a 22 de julho de 2011
Centro, Centros – Ética, Estética UFPR – Curitiba, Brasil
iAutor
Altamir Celio de ANDRADE (doutorando)
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

Um passo além de partir
19/02/12

Outro dia, nosso amigo Roger do blog A Teologia Livre postou algo sobre o que ele denominou de “O Clube da Capa Envelhecida” (ou encardida) considerando o que segue:
“Servindo de orientação para uma linha de ideias relativamente novas e revolucionárias para a sua época, seus autores advogavam justamente a tese de que não havia nenhuma linha nova de ideias e que, eles mesmos, não eram orientadores de nada”.
Na rápida lista que fez desses autores, imprudentemente, ele incluiu o meu nome. Nos comentários aproveitei para brincar com isso pois havia sido incluído com meu pseudônimo Lou Mello e não com meu nome de batismo, que eu mesmo pouco uso. Em cima do comentário, Rubinho e Nelson Costa, rápidos como são, aproveitaram para aumentar a minha responsabilidade nessa história, sendo que o Nelson chega a me nomear o pai da coisa toda.
Talvez eu tenha idade para ser pai de alguns, já outros não. Mas é só isso, se não me engano. Claro que embarquei nessa linha desde o principio, quando comecei a escrever o blog, lá pelos idos de 2005. Naquela época, a editora Mundo Cristão lançou, com tradução do Paulo Brabo (outro da lista e o mais eloquente de todos nós, talvez) O Evangelho Maltrapilho do Brennan Manning, se não me engano, o primeiro dos livros com capa envelhecida, artificialmente, lógico, nessa linha ideológica. Livros com capas envelhecidas naturalmente eu os tenho aqui aos montes e eles não dizem nada sobre a crise de ideias em que nossa geração chafurdou. Penso que esses acontecimentos começaram sim a dar uma espécie de novo tom para o que viria a seguir e, aos poucos, começaram a pipocar novos (uns nem tanto, falo de mim) pensadores via blog e aos poucos via livros, também. Sem falar que quase todos, se não todos, são ótimos preletores.
Também descobrimos ecos importantes fora das nossas fronteiras, tais como o pessoal da Igreja Emergente, com destaque para o Brian McLaren, o Steve Knight e o combatido, mas competentíssimo Rob Bell.
Entretanto, devo fazer justiça a pensadores mais velhos do que todos nós como Schopenhauer , cujo artigo no Wickipedia menciona que com sua análise metafísica da vontade, sua visão da motivação e desejos humanos, e seu aforístico estilo de escrever influenciou muitos dos melhores pensadores incluindo Friedrich Nietzsche,[3]
Richard Wagner, Ludwig Wittgenstein, Erwin Schrödinger, Albert Einstein,[4]
Sigmund Freud, Otto Rank, Carl Gustav Jung, Leo Tolstoy, Thomas Mann, e Jorge Luis Borges.
Esses, por sua vez influenciaram pensadores como os mencionados na lista do Roger, mas antes, alguns dos chamados teólogos da libertação, como e exemplar Rubem Alves. Claro, sempre há aqueles que leem tudo o que os outros leram, andam com eles e não entendem nada. Refiro-me ao Genésio (um cara que usa o pseudônimo Leonardo Boff) que pegou essas preciosidades perolisticas e as atirou aos porcos ou essa gente oportunista que vive fazendo política partidária canhestra.
Acontece então, que Rubem Alves já em adiantado estado de decomposição, sabe-se se lá por que, vai à uma Igreja evangélica denominada Besteda para re-lançar um de seus livros sobre a ultrapassada Teologia da Libertação, ou como os promotores chamaram o evento, libertar a teologia. Essa igreja tem como papa, ninguém menos do que o pastor Ricardo Gondim. Por uma dessas coincidências inexplicáveis, pouquíssimos dias após esse evento e se dizendo um influenciado pelo velho e bom escritor da noite autográfica, Ricardo resolve declarar-se fora do que ele chama Movimento Evangélico ao pendurar na porta de seu site o texto Tempo de Partir contendo suas quatro teses motivacionais. Ai é preciso dar o devido desconto, Lutero escreveu noventa teses quando dissídio do movimento evangélico da época dele, mas era alemão e você sabe como esses caras gostam de escrever e escrever.
Em um primeiro momento, fiquei preocupado, mas pensando bem, achei essa atitude um avanço. Aliás, a menção ao post do Roger lá no site dele foi a glória. Ainda que indiretamente, essa foi a primeira citação que ele fez à Gruta e a mim, por inclusão. Mas foi bom. Agora, papai aqui não está satisfeito não, como sempre. Na verdade, o Gondim não se despediu do tal Movimento Evangélico. Para mim ele foi despedido sonoramente quando tomou aquele pé nas regiões glúteas da Revista Ultimato. Eles não disseram, mas eu estou dizendo. De qualquer forma, ele está formalmente declarado “fora” e o parabenizo.
Para uma satisfação completa e uma disposição de receber a carta dele para fazer parte de nossa igreja, a dos desigrejados (ou dos sem igreja), o que seria um passo muito além dessa história de deixar ou partir do e/ou o Movimento Evangélico, eu lembro que a condição “si ne qua non”, para tanto, é a vitima não pertencer a igreja institucional nenhuma. Como afirma o Tuco Egg em seu excelente livro “Igreja entre aspas”: “Se queremos salvar o cristianismo deste lado do mundo, a primeira coisa a fazer é libertá-lo da Igreja”. Não sei se o Ricardo cumprirá nossa regra áurea algum dia, suponho que não e também que será a melhor preferência de seus paroquianos. Mas ele está a caminho e oraremos (nós os habitantes da Gruta) para Deus completar a obra. Isso, sim, será para ele uma teologia da libertação.

Maliciosos e maldosos
16/02/12

Os seminários e cursos sobre administração da vida, seja a pessoal, a familiar, a financeira, etc., costuma ser muito interessantes. Eu mesmo já coordenei (facilitei, ministrei) vários deles. A grande verdade, se me permitem, é que, em muitos desses momentos, me pego perplexo e não encontro nada melhor do que rir de mim mesmo. O Pior é constatar quanto esses ensinamentos se encaixam nas vidas das pessoas, enquanto para mim, chegam a não fazer sentido algum.
Evidentemente sou o grande culpado, fique tranquilo e não perca seu tempo querendo me convencer de mais algum novo tipo de culpa. Talvez seja essa a razão (ainda não solucionada) do meu horror a psicólogos e pastores (teólogos). Essa gente dorme e acorda sonhando em criar algum tipo novo de culpa. Um depende do outro como a praga da planta e o difícil é identificar quem é quem, aí.
Imagino o quanto todos devam estar cansados e até resistentes a minha enfadonha lenga, lenga sobre meu filho. Na verdade, ninguém deve estar mais cheio do que eu, ou talvez ele mesmo seja o grande campeão nessa disputa. Em verdade vos digo que de tudo o que ele necessita, só para sentir-se um pouco melhor, não sou capaz de suprir nem um décimo disso. Em grande parte das vezes a coisa requer dinheiro, mas nem sempre. No caso da grana, em nossa causa, pode ter havido alguma confusão no céu durante a escolha da família ideal para cuidar desse caso. Todos nós sabemos que a condição sócio econômica das vítimas não é a única e talvez nem a mais determinante dentro dos critérios celestiais. Mas estou sempre tão distante do necessário para ajuda-lo que chego a sentir ódio de ter nascido, de existir, de ser tão incompetente, bla, bla, bla. Sabe, fico com um horroroso pensamento de que Deus poderia esperar muito mais de mim do que eu mesmo e, nesse caso, por ter me dotado de recursos espirituais, cognitivos, uerevis, talvez. Tudo isso corroe a minha alma e até duvido ser portador de uma igual a dos outros.
Ontem estive na loja da Empresa que fornece energia elétrica para a minha casa. Tenho um probleminha razoável com eles. Consta lá que mantemos uma UTI domiciliar. Talvez isso possa ser um exagero, mas temos de fato um aparelho concentrador de oxigênio com respirador e o torpedo emergencial que fica ligado boa parte do tempo e depois o consumo normal de uma casa que abriga quatro ou cinco pessoas mais uma cadela e uma calopsita. Por alguma razão desconhecida, só há uma instalação elétrica na casa e as coisas estão misturadas. O fato é que qualquer acontecimento fora da rotina em uma casa está sujeita a alterar os consumos normais no local, e como altera, não só a luz, mas todo o resto. Bom, eles não me ajudaram muito, para não dizer nada. Se quiser ver meu lindo e conhecido nome do rol dos maus pagadores a solução é uma só: pagar. Se eu acertar o acordo todo que já existe, eles se disporão a fazer outro em relação ao restante. Em outras palavras !#$$!$$!@%$%.
Vi uma notícia no G1 e até divulguei no meu site onde me travisto de ajudador de cardiopatas congênitos, alias nem sei para que, sobre um garotinho chamado Daniel, portador de uma síndrome grave que o mantinha na UTI em um hospital há quatro anos. Recentemente fizeram uma campanha para arrecadar o dinheiro para a compra de um aparelho mais o carrinho de transporte da coisa, cujo valor divulgado era de R$ 25.000.00 e conseguiram arrecadar R$ 115.000,00 até agora. Espero que consigam aumentar isso, pois sei muito bem que não será demais. Agora a família poderá comprar uma casa e montar a UTI nela, mas a companhia de luz não abrirá mão da parte que lhe cabe nesse latifúndio.
Meu é tanta coisa, olha só pro cê vê, fora os probleminhas relacionados com a cardiopatia, sangue com parâmetros indisciplinados que insistem em sair de suas raias, se faz hemodiluição ou não, se toma mais antibiótico ou outra porcaria qualquer, risco de tromboses, endocardite e sei lá o que mais, fora as pernas que não há quem de jeito ou se disponha a tratar com um mínimo de compromisso hipocrático, tem a questão dos dentes. Sabe, é 250 por cada canal para o canalista e há vários, 80 para cada extração para a cirurgiã dentista, num sei quanto para outro fazer a parte de próteses e, certamente, outras surpresinhas. E ninguém se move sem pagamento correspondente. Pergunto-me, onde anda o velho, bom, competente e simples “dentista”? O diabo é que não dou conta. Preciso mandar fazer os óculos, mais de 3 graus de miopia e ainda não consegui. Fora roupas, alimentação especial, farmácia, educação e ainda precisamos dar amor, como se nada houvesse no ar.
Se você pensou, caso tenha sido corajoso e generoso para ler isso até aqui, que meu objetivo seria pedir dinheiro ou qualquer outra coisa, esqueça. Eu me viro, fique tranquilo, e sempre tem algum milagre vindo por aí. Volto lá no começo, naquela parte em que começo rir desses cursos e seminários, das pregações dos pastores, da patética participação desses juízes que militam as redes sociais, dentre eles, muitos com passagens pela igreja, me dando conta de quão maliciosos e maldosos somos todos nós.

2leep.com
Os Ninivitas pós modernos
15/02/12

“Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim.”
Deus
A Bíblia em toda a sua excentricidade contém extravagâncias inimagináveis, dentre elas Nínive. Você já foi fazer turismo em Nínive? Se eu fosse você não iria, pois isso inclui risco de morte. Ainda mais se você for alguém como eu, que os judeus veem como um dos filhos de Ismael e que, de outro lado, os filhos de Ismael me veem como um judeu. Pior é que não sou nem uma coisa e muito menos a outra. Só se for em algum lugar do passado ou longínquo de minha ascendência. Nesse caso, e se a bíblia tiver mesmo razão, seriamos todos irmãos e nem precisaríamos ficar por ai jogando bombinhas atômicas e ecologicamente detestáveis, uns nos outros.
Pois é, Nínive parece ter mesmo existido. Foi parte da Assíria e um personagem famoso, mui amigo do povo de Deus, chamado Senaqueribe tentou transformá-la em cidade grande, dada a importância que ela tinha na época.
Mas tudo isso não faz parte de nossas modestas intenções aqui, quero mesmo é me ater à relação ente Deus e os homens, essa coisa confusa que parece piorar cada vez mais.
Qual era o problema dos ninivitas que obrigou ninguém menos do que Deus a incomodar o pacato, mas fiel Jonas, enviando-o até esta cidade, que não era logo ali na esquina, mas requeria viagem marítima por barco e por peixe, lombo de jumento e caminhadas homéricas, suponho? Se eu te contar a razão de toda essa saga, você dirá que estou de gozação. Com certeza.
Bom, lá vai, mas não se irrite, o problema que estava irritando Deus a ponto dele colocar as coisas na base do dá ou desce, digo, ou para coma isso ou acabo com tudo, era, nada menos que: malícia.
Isso mesmo, sabe esse tipo de gente que vê sexo em tudo, em cada palavra, na donzela que passa, nas expressões fálicas e todas aquelas outras bobagens que o Roberto Freire receita em seu livro “Sem tesão não há solução“. Não que ele não tenha razão, o pedagogo Paulo e também Freire, tido e havido como o nosso melhor pedagogo (eu sou fã da Maria Nilde Mascellani) chegou a aplicar os conceitos desse livro em suas teorias educacionais. Muito pior que isso, foi a importação dessas coisas para a arte da pregação e da retórica, por parte de certos pregadores conhecidos por aí. Se bem que a maioria dos pregadores atuais jamais leria Roberto ou Paulo Freire. Somos a geração conduzida por pastores que, quando leem, é algo mais do tipo literatura bizarra religiosa. Salvo engano.
Estranho né, mas Deus detesta, repito, detesta gente cheia de malícia. Some-se à malícia de cunho sexual, as outras muito comuns nos negócios, na arte de enganar, de trair, nas intenções, na propaganda marota, na mídia, no jogo político local ou internacional, na igreja e, sobretudo, no ideário das pessoas como eu e você.
Problema é que podemos todos estar por um fio ou ano. Claro que a preocupação maior em nossos dias é com a forma como estamos cuidando do planeta, principalmente depois que norte-americanos, europeus e asiáticos deram-se conta de que pode não haver agua e petróleo para todos, em breve ou com a mortandade inigualável de nossos tempos pelas mais variadas causas, começando pela miséria e terminando pelos desastres causados pelas mudanças climáticas, graças às excentricidades dos senhores e senhoras que permitimos nos governar. Há muitas outras razões para Deus cumprir a promessa que fez a Nínive e que já deve ter feito de todas as formas possíveis e imagináveis em relação a todo o planeta Terra, através de milhares de caras como Jonas espalhados por aí, para breve, mas que ninguém dá ouvidos. Sem falar em todos os avisos que ano a ano o Maioral vem nos enviando e todos nós fazemos ouvidos de mercadores.
No caso de Nínive o que mudou o coração do Criador levando-o a mudar suas intenções, para o azar de Jonas que estava louco para ver sangue assírio derramado, foi o bom e velho arrependimento. Não esse aí que todo mundo tem quando lamenta não ter jogado na Megasena que fez mais alguns milionários na semana passada, mas aquele arrependimento do tipo que Paulo descreve aos romanos, capaz de mudar o curso da mente das pessoas.
Jonas, digo, Lou



































































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