Bonhoeffer
A Confissão de Culpa da Igreja
28/10/11

A Igreja confessa não ter transmitido com bastante sinceridade e clareza seu testemunho do Deus Uno, que em Jesus Cristo se revelou para todos os tempos e que não tolera outros deuses ao seu lado.
Reconhece seu temor, seu desvio, suas perigosas conceções. No mínimo, renegou sua missão de guardiã e consoladora. Com isso recusou com frequência aos expulsos e depreciados da misericórdia devida. Ficou muda onde deveria ter gritado quando o sangue dos inocentes estava clamando ao céu. Não proferiu a palavra devida da maneira devida e no devido tempo. A apostasia não resistiu à morte e causou a impiedade das massas.
A Igreja confessa ter profanado o nome de Jesus Cristo ao envergonhar-se dele diante do mundo e não haver oposto maior resistência ao abuso deste nome empregado para fins malignos. A Igreja tem assistido placidamente que sob o nome de Cristo produziram-se violências e injustiças. Tampouco se opôs ao escárnio de que foi objeto o nome santíssimo, ajudando assim a encobri-lo. Reconhece que Deus não deixará sem castigo a quem abuse de seu nome como tem ela tem feito. A Igreja se reconhece culpável pela perda das festas dos dias santos; da falta de assistência aos seus serviços religiosos; do desprezo ao descanso dominical. Assume a culpa do desassossego e da perturbação, mas também da exploração do potencial de trabalho muito além da jornada normal de trabalho, porque seu testemunho de Jesus Cristo era débil, com também seu culto rendido a Deus.
A Igreja se confessa culpada pela derrubada da autoridade paterna. A Igreja não foi capaz de opor-se ao desprezo pela velhice e ao endeusamento da juventude, com medo de perder a juventude e com ela o futuro. Como se seu futuro fosse a juventude. Não sabe como testemunhar a dignidade divina dos pais contra uma juventude revolucionária e se contentou com a tentativa muito terrena de “marchar com a juventude”. Desse modo se fez culpável da destruição de incontáveis famílias, da traição dos filhos cometida contra seus pais; da autoidolatria cometida pela juventude e com ela de sua rejeição a Cristo.
A Igreja confessa haver assistido o emprego arbitrário da força bruta ao sofrimento do corporal e psiquico de inúmeros inocentes, à opressão, ao ódio e ao assassinato, sem levantar sua voz em favor dos que sofrem, sem haver providenciado caminhos para acudir em sua ajuda. Fez-se culpada pelo dano causado à vida dos irmãos mais débeis e indefesos de Jesus Cristo.
A Igreja confessa não haver encontrado palavra alguma que ensinasse o caminho e servisse de ajuda ante a dissolução de toda ordem à mutua relação dos sexos. Não soube opor nada válido, nada forte, ao desprezo da pela castidade. Nem à proclamação da promiscuidade sexual. Não passou de uma timida indignação ocasional. Com isso se fez culpada do empobrecimento da saúde da juventude. Não tem sabido proclamar com força suficiente a pertinência do nosso corpo com o corpo de Jesus Cristo.
A Igreja confessa haver contemplado, muda, a privação e expolaração infligida aos pobres e o enriquecimento e a corrupção do forte.
A Igreja confessa ser culpada diante dos inumeros seres cuja vida foi aniquilada devido à calúnia, aos denunciantes e à infâmia. Não culpou o caluniador e dessa forma abandonou o caluniado ao seu destino.
A Igreja confessa ter cobiçado a segurança, a tranquilidade, a paz, a propriedade, a honra, ao que não teria direito e, dessa maneira, não freiou, se não, favoreceu a cobiça dos homens.
A Igreja confessa ter pecado contra os Dez Mandamentos, com isso confessa ter renegado a Cristo. Não testemunhou a verdade de Deus, de tal forma que toda a busca da verdade, toda ciência, reconhecem que tem sua origem nesta verdade; não proclamou a justiça de Deus de tal maneira que todo direito verdadeiro tenha que ver nela a fonte de sua própria essência; não soube fazer a providência de Deus tão digna de fé para que toda a ação humana houvesse aceitado suas tarefas partindo dela. Devido ao seu próprio emudecimento, a Igreja se fez culpada da perda da ação responsavel, da falta de valentia necessária para ser solidário e disposto para ajudar, para sofrer pelo que se reconheceu como verdadeiro. Fez-se culpada por toda a autoridade ter renegado a Cristo.
São exageradas as nossas afirmações? É possivel que alguns justos se levantem afirmando que não é culpa da Igreja, mas dos outros. É provavel que alguns homens da Igreja rechassem tudo isto como um tosco insulto e ponderem distribuindo a medidade da culpa aqui e acolá, com a pretensão de ser juízes eleitos para sentenciar o mundo. Por acaso a Igreja não estava impedida e atada em todos os sentidos? Por acaso todo o poder do mundo não estava contra ela? Por acaso a Igreja deveria arriscar os últimos: seus cultos, sua vida comunitária, empreendendo luta contra as forças anticristãs? Assim fala a incredulidade, quem na confissão da culpa não vê a recuperação da imagem de Jesus Cristo que tira todo o pecado do mundo, se não somente uma degradação moral perigosa. Porque a livre confissão de culpa não é nada que poderia fazer-se ou deixar de fazer, se não que é a irrupção da imagem de Jesus Cristo na Igreja, irrupção que a Igreja sofre; ou bem, se não a sofre, deixa de ser Igreja de Cristo.
O que malogra a confissão de culpa da Igreja ou a falsifica, se faz culpado – sem esperança – ante Cristo. Ao confessar sua culpa, a Igreja não exonera o homem de sua própria confissão de culpa, mas o chama a integrar a comunidade da confissão de culpa.
Somente julgada por Cristo, a humanidade apóstata pode ser absolvida por ele. Sob esse juizo, a igreja chama a todos aqueles lhe é dado alcançar.
Dietrich Bonhoeffer
Do Livro “Ich habe dieses Volk geliebt”

Meus três alunos mais queridos
18/08/11
17 de agosto de 1943
Antes de tudo mais vos peço que não tenhais preocupações por mim. Resisto a tudo muito bem e me sinto bem tranquilo intimamente. É tão bom que de experiências anteriores saibamos tudo um sobre o outro, de modo que alarmas não mais nos possam inquietar.
Estou descansado e contente com a noticia de que os tribunais permanecem em Berlim. No mais, tanto vós como eu temos coisas melhores a fazer do que pensar nos alarmas. Aqui na cela se aprende sem fazer maior esforço, a ganhar distância dos acontecimentos e das inquietações do dia…
Como nesses últimos 14 dias, devido à espera insegura e diária, nem mais consegui trabalhar direito, quero agora tentar novamente começar com meus trabalhos escritos. Na semana passada tentei um projeto para um drama, mas verifiquei que o assunto não é bastante dramático, e por isto, preferi a forma de prosa. Já estou trabalhando nesse sentido. Trata-se da vida de uma família. É claro que há muita coisa pessoal nesse meio…
A morte daqueles três pastores muito me comoveu. Eu ficaria muito grato se alguém pudesse comunicar aos parentes que no momento não posso lhes escrever. Sem isto não compreenderiam meu silencio. Acontece que estes três, dentre meus alunos, me eram os mais queridos. É de fato uma perda grande, pessoal, sensível até para a Igreja. Até agora podemos contar cerca de 30 alunos meus que já morreram em combate, em sua maioria, dos melhores…
Dietrich Bonhoeffer
In Resistência e Submissão















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